sábado, 30 de junho de 2018

Insegurança


Surto de toxoplasmose assusta município gaúcho há quase três meses 

Desde março, 569 pessoas tiveram diagnóstico confirmado em Santa Maria

Publicado em 28/06/2018 - 18:49

Por Paula Laboissière - Repórter da Agência Brasil  Brasília




Quase três meses após a notificação dos primeiros casos de toxoplasmose em Santa Maria (RS), o surto da doença no município gaúcho continua preocupando médicos e autoridades sanitárias. De março até agora, 569 pessoas tiveram diagnóstico confirmado e 312 casos estão sob investigação. Segundo o Ministério Público Federal, os números já configuram o maior surto de toxoplasmose do mundo.

O alerta maior é entre gestantes – pelo menos 50 receberam resultado positivo para a doença e 145 apresentaram sintomas e também estão sendo investigadas. Além disso, cinco abortos espontâneos provocados pela infecção foram contabilizados. A toxoplasmose é transmitida ao feto pela mãe e, quando não provoca a morte do bebê, causa efeitos permanentes à criança, como cegueira e comprometimento neurológico.

Infectologistas e a própria Secretaria de Saúde do município cobram do governo federal mais apoio financeiro. No Hospital Universitário de Santa Maria, onde a maior parte dos pacientes, incluindo gestantes infectadas com toxoplasmose, recebe atendimento, faltam insumos, remédios e testes diagnósticos capazes de confirmar laboratorialmente a doença – etapa fundamental para o início do tratamento.

“Ouço muito falar em gestão. Mas será que tem como fazer gestão com tão pouco orçamento? Tem. Tem como fazer gestão com pouco orçamento. Mas e quando há um imprevisto? A gente precisa de reforço nesse orçamento”, avaliou a secretária de Saúde de Santa Maria, Liliane Mello Duarte, durante audiência pública hoje (28) na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado. “Viemos pedir apoio. O ministério participou da investigação a partir do dia 26 [de abril], está participando de forma importante, mas nós precisamos de mais.”

Comissão do Senado promove audiência pública sobre o surto de toxoplasmose em Santa Maria - Geraldo Magela/Agência Senado


Ausência de protocolo

Outro problema é que, em meio às centenas de casos de infecção confirmados na cidade, profissionais de saúde não contam com o chamado Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para a doença. O documento estabeleceria critérios claros de diagnóstico e tratamento da toxoplasmose, com as doses adequadas de medicamentos e os mecanismos para monitoramento clínico.

Infectologista há 20 anos, Alexandre Schwarzbold participou da audiência pública via videoconferência e disse estar acostumado a ver casos de toxoplasmose. Ele garante, entretanto, que o surto em Santa Maria apresenta particularidades importantes e grande impacto social, já que a doença apresenta alto índice de mortalidade entre crianças pequenas e recém-nascidos.

“Estamos diante de uma situação ambiental não documentada”, disse, ao se referir à possibilidade de a fonte do surto estar ligada à água e alimentos contaminados e ofertados no próprio município. “Isso serve de modelo de oportunidade para que o ministério estabeleça um protocolo pra essa doença, um protocolo amplo, desde prevenção, insumos diagnósticos e disponibilização de medicamentos.”

Alerta para novas gestações

A também infectologista Jane Margarete Costa acompanha com preocupação o surto no município. Via videoconferência, ela destacou o trabalho de mutirão de profissionais de saúde para dar conta da demanda de gestantes infectadas em Santa Maria. O tratamento, nesses casos, deve ser iniciado o quanto antes e mantido até o final da gravidez. Mulheres com mais de 18 semanas de gestação com resultado positivo para toxoplasmose recebem um coquetel de 11 medicamentos na tentativa de proteger o feto de sequelas mais graves.

Segundo a infectologista, as orientações para a população geral e para as grávidas, particularmente, incluem não beber água in natura, apenas fervida; não consumir alimentos crus; e manter as carnes devidamente refrigeradas e, posteriormente, cozinhá-las muito bem antes do consumo. Durante a audiência pública, a médica chegou a sugerir que novas gestações sejam evitadas até que a situação no município se normalize.

“Como técnica da área de saúde, eu reafirmo: em hipótese alguma, podemos passar para a população uma ideia de segurança quanto a fontes ambientais, água, alimentos. Todas as pessoas têm que manter cuidados preconizados”, disse, ao cobrar o que chamou de mudança de paradigmas. “Há um risco de 25% de contaminação do feto no primeiro trimestre, quando pelo menos a metade dos casos vai resultar em aborto e os outros terão sequelas importantes.” 

Demandas 

Ao final da audiência, uma lista de demandas foi entregue ao Ministério da Saúde: a adoção de um protocolo nacional de diretrizes terapêuticas em casos de epidemia de toxoplasmose; o reforço da verba para o Hospital Universitário de Santa Maria; definição de diretrizes para a realização de exame mensal da doença durante o pré-natal; e a detecção da toxoplasmose no teste do pezinho, além da promoção de uma política de prevenção da doença nacionalmente.

Durante o debate, o secretário de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, Osnei Okumoto, garantiu o que chamou de envolvimento da pasta no monitoramento e no controle do surto de toxoplasmose em Santa Maria. Ele disse que mantém conversas com a Secretaria de Ciência e Tecnologia no intuito de conseguir mais verba e investimentos para o combate à doença no município gaúcho.

Por meio de nota, a pasta informou que o surto tem como causa provável a contaminação pela água, com possível contaminação de hortaliças como causa secundária. O parecer foi apresentado ao estado e ao município na última terça-feira (26), após análise dos dados do estudo de caso feito por uma equipe do ministério em conjunto com os gestores locais.

“Vale ressaltar que as outras possíveis causas comuns em casos de toxoplasmose foram eliminadas durante a pesquisa, como carne bovina, de frango e queijos, entre outros alimentos. No entanto, a investigação continuará sendo realizada”, concluiu o comunicado.

Edição: Juliana Andrade




segunda-feira, 18 de junho de 2018

Coração devagar


Frio aumenta em 30% chances de internação por problemas cardíacos

Publicado em 16/06/2018 - 16:43

Por Ludmilla Souza – Repórter da Agência Brasil São Paulo









Entre junho e agosto, meses marcados por temperaturas mais frias, as internações nos hospitais públicos da cidade de São Paulo por insuficiência cardíaca e infarto chegam a ser 30% maiores do que no verão. É o que mostra estudo inédito realizado por médicos da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein.

A pesquisa, liderada pelo cardiologista Eduardo Pesaro considerou todas as internações por insuficiência cardíaca (76.474 casos) e infarto agudo do miocárdio (54.561 casos) registradas em 61 hospitais públicos da capital paulista entre janeiro de 2008 e abril de 2015.

Os dados fazem parte do Cadastro Nacional de Saúde, do Sistema Único de Saúde (SUS). Foram consideradas também as temperaturas mínima, máxima e média em cada período ao longo desses sete anos, registradas pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). “Provavelmente isso se dá por fenômenos múltiplos como o frio e a qualidade de ar como principais aspectos de risco. As pessoas que estão em maior risco e que já são doentes, com pressão alta, diabetes, devem ter uma atenção especial nesse período e maior controle como tomar corretamente o remédio e medir a pressão”, aconselhou o cardiologista.

A pesquisa mostrou ainda que o número médio de internações por insuficiência cardíaca no inverno foi maior em pacientes com mais de 40 anos. Já as hospitalizações por infarto foram registradas em maior número em pacientes com idade superior a 50 anos. De acordo com o cardiologista, as causas do aumento do risco cardiovascular no inverno não estão diretamente ligadas à queda do ponteiro do termômetro, mas às condições ambientais e socioeconômicas de São Paulo.

“Inverno não significa só frio, mesmo porque em São Paulo ele é ameno, com temperatura média de 18 graus e variação de apenas 5 graus. Ele também significa poluição aumentada, crescimento de epidemias provocadas pelo vírus da gripe, o Influenza, além do tempo seco”, diz Pesaro.

Poluição

Com uma população de quase 12 milhões de habitantes e uma frota de 8,64 milhões de veículos (incluindo caminhões e ônibus), São Paulo fica mais poluída no inverno. A baixa umidade, chuva reduzida e as frequentes inversões térmicas (quando o ar frio é bloqueado por uma camada de ar quente e fica preso perto da superfície) são condições que impedem a dispersão de poluentes como monóxido de carbono (CO), dióxido de nitrogênio (NO²), dióxido de enxofre (SO²) e material particulável inalável (PM10).

“Temperatura baixa, pouca umidade e alta poluição contribuem para uma maior incidência de doenças respiratórias e gripe, com o consequente aumento do risco cardiovascular”, explica Pesaro.

Uma das hipóteses levantada no estudo é de que o aumento do risco de infarto e de insuficiência cardíaca no inverno está relacionado às condições socioeconômicas da população. De acordo com o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, na região metropolitana de São Paulo, 596.479 casas são consideradas subnormais, como assentamentos irregulares, favelas, invasões, palafitas, comunidades com deficiência na oferta de serviços públicos básicos, como rede de esgoto e tratamento de água, coleta de lixo e energia elétrica. A capital paulista concentra dois terços desse total ou 397.652 lares.

“Em São Paulo, uma população mais desamparada, com casas improvisadas ou sem aquecimento, mais exposta à poluição e ao frio pode apresentar mais risco de ter doenças cardíacas no inverno que uma pessoa que mora em um país de clima temperado, mas está mais protegida por ter calefação na residência e roupas melhores”, diz Pesaro.

Para se proteger, ele recomenda que as pessoas que têm condições, aqueçam bem a casa. “Um aquecedor portátil ajuda em semanas mais extremas de frio. Outra coisa é tratar do vazamento de ar frio por janelas, portas e telhado. E também se agasalhar melhor, pois tudo isso contribui com a proteção, a ideia é não expor ao frio as pessoas que têm maior risco, como idosos e doentes cardiovasculares”.

Ele ainda ressalta a importância da vacinação. “As epidemias virais e as gripes aumentam o risco cardíaco, vacinar-se especialmente nas vésperas do outono e inverno é importante também”. 

O que acontece com o coração

O frio faz os vasos sanguíneos se contraírem e eleva a liberação de adrenalina, o que faz subir a pressão arterial. Além disso, o aumento da poluição contribui para doenças respiratórias que sobrecarregam o coração. Já o Influenza (vírus da gripe) é capaz de causar inchaço ou inflamação das coronárias, com a possibilidade de liberar as placas de colesterol nela depositadas. As placas, por sua vez, podem causar bloqueios e interromper o fluxo sanguíneo.

Para Pesaro, o governo precisa investir em políticas públicas que melhorem a qualidade de vida da população. “As pessoas e os governos têm que cuidar melhor daqueles indivíduos em maior risco durante o inverno. Quem tem risco deve regularizar o controle das suas próprias doenças, como por exemplo, pressão alta, que sabemos que aumenta no inverno, lembrar de tomar os remédios, fazer a medida da pressão com periodicidade e tentar não passar frio mesmo dentro de casa”, aconselha.

Edição: Denise Griesinger


quinta-feira, 31 de maio de 2018

HIV e barreiras biológicas



Novo medicamento para evitar a transmissão do vírus da Aids é adotado e avaliado no Brasil














A Profilaxia Pré-Exposição Sexual (PrEP), a mais recente estratégia de prevenção da transmissão do HIV, avança no Brasil. Trata-se de uma pílula de uso diário que evita a contaminação pelo vírus da Aids na quase totalidade dos casos. Aprovada em 2017 para uso no país e distribuída desde o início deste ano no sistema público de saúde, a medicação tem atraído pessoas com risco de se infectarem pelo vírus causador da Aids, de acordo com estudos recentes. Apesar dos avanços, ainda há incertezas sobre o risco de a PrEP promover o abandono de outras formas de prevenção, como o uso de preservativos, o que aumenta o risco de transmissão de HIV, gonorreia, sífilis, clamídia e outras doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). De acordo com o Ministério da Saúde (MS), 8% das trabalhadoras do sexo têm sífilis e a maioria não usa camisinha em relações sexuais com clientes constantes, namorados ou maridos.

“A efetividade da PrEP no Brasil depende da ampliação do acesso a esse medicamento e do atendimento adequado aos usuários”, afirma a médica epidemiologista Maria Amélia Veras, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Efetividade é o desempenho de um medicamento em reais condições de uso por um número elevado de usuários. “Para funcionar de modo satisfatório, essa ou qualquer outra estratégia de prevenção contra o HIV pressupõe que as necessidades dos usuários sejam levadas em consideração e que os profissionais da saúde possam estar disponíveis para conversar com eles. Para que isso ocorra, precisamos que o SUS seja fortalecido com mais recursos e pessoal.”

A PrEP consiste no consumo de um comprimido com dois medicamentos antivirais – tenofovir e emtricitabina – e é indicada para quem não se infectou com o vírus e tem relações sexuais de risco, com pessoas contaminadas pelo HIV. Produzidos pela empresa farmacêutica norte-americana Gilead, os comprimidos são importados e, além do sistema público de saúde, podem ser comprados em farmácias ou por internet a um custo médio mensal de R$ 300. Há uma perspectiva de produção nacional: o Instituto de Tecnologia em Fármacos da Fundação Oswaldo Cruz (Farmanguinhos/Fiocruz), do Rio de Janeiro, anunciou em março um acordo com uma empresa farmacêutica nacional para produzir o tenofovir e a emtricitabina. O Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) recusou o pedido de patentes das duas formulações no Brasil, o que facilita sua produção no país, mas o plano de fabricar os fármacos a preços menores ainda depende da aprovação do registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Aprovada nos Estados Unidos em 2012, com poucos efeitos colaterais (entre os quais enjoo e flatulência), a PrEP tem uma eficácia superior a 90%. Um estudo de pesquisadores da Fiocruz publicado na Lancet HIV em março deste ano indicou uma alta taxa de adesão a essa abordagem preventiva no Brasil: 83% dos 450 participantes chegaram até o final das 48 semanas propostas de tratamento, fornecido pelas instituições de pesquisa que colaboraram com o estudo. Os participantes eram homens que fazem sexo com homens e mulheres transexuais – que se identificam como sendo do sexo feminino, embora ao nascer tenham sido registradas como do sexo masculino – não infectados por HIV. Todos mantiveram os hábitos sexuais e tomavam PrEP regularmente: a proporção de pessoas que relataram ter feito sexo anal sem preservativo com pelo menos três parceiros não se alterou de modo significativo do início ao fim do período em que tomaram os antivirais.

“O abandono do uso do preservativo aumenta o risco de transmissão de HIV, sífilis, gonorreia, clamídia e outras doenças”

O problema é que, mesmo que o medicamento tenha alta eficácia contra o HIV, o abandono do uso de preservativo aumenta o risco de transmissão de outras DSTs. Na Espanha e no Canadá, por exemplo, altas taxas de DSTs têm sido relatadas entre usuários de PrEP que fazem sexo sem preservativo, observa o médico virologista Pablo Barreiro, do Hospital Universitário Carlos III, de Madri, em artigo na revista Aids Reviews de março deste ano.

Os mais vulneráveis
O MS estima que 866.092 pessoas vivam com HIV, das quais 84% foram diagnosticadas e 63% recebem tratamento. A taxa de detecção de Aids apresentou uma pequena redução – de 19,5 casos por 100 mil habitantes em 2015 para 18,5 para cada 100 mil em 2016 –, mas está aumentando principalmente entre homens de 15 a 29 anos. Dois grupos são os mais vulneráveis à infecção e apresentam as menores taxas de adesão aos tratamentos. O primeiro é o das mulheres transexuais, com uma taxa de infecção que varia entre 17% e 64%, segundo estudos preliminares do MS. O segundo é o de gays e outros homens que fazem sexo com homens, dos quais 18% já se infectaram com o vírus causador da Aids, de acordo com o MS. Entre as mulheres, as taxas de detecção do HIV crescem na faixa entre 15 e 19 anos (de 3,6 casos por 100 mil mulheres em 2006 para 4,1 por 100 mil em 2016) e na faixa de 60 anos ou mais (de 5,6 em 2006 para 6,4 em 2016). Nas outras faixas de idade, a tendência é de queda nos últimos 10 anos, principalmente entre as mulheres de 25 a 29 anos (de 30,5 por 100 mil em 2006 para 15 por 100 mil em 2016).

Do início de janeiro até o final de março deste ano, 36 centros de saúde pública de 11 estados atenderam 1.401 pessoas interessadas em PrEP. No dia 5 de abril, na palestra de abertura de um curso sobre Aids na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), a médica Adele Schwartz Benzaken, diretora do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle de Infecções Sexualmente Transmissíveis, HIV/Aids e Hepatites Virais do MS, anunciou os planos de aumentar o número de pessoas atendidas e de centros de atendimento.

O primeiro grupo de usuários da PrEP na rede pública de saúde foi principalmente de homens gays e outros homens que fazem sexo com homens (84,5%) e brancos ou amarelos (61,3%) de alta escolaridade, com baixa participação de mulheres transexuais e travestis (1,2%). “Temos de nos esforçar para chegar às populações mais vulneráveis ao HIV, como gays de baixa escolaridade, pessoas trans e trabalhadoras do sexo, que são as que mais precisam da PrEP”, disse Adele. Como estratégia para deter a transmissão do vírus, o sistema público de saúde já oferece a Profilaxia pós-Exposição Sexual (PEP), que consiste no uso de outros antivirais em até 72 horas após exposições de alto risco para o HIV, com alta eficácia, como a PrEP. O número de vezes em que a PEP foi adotada passou de 15.414 em 2009 para 87.414 em 2017, já que uma pessoa pode tomar mais de uma vez.
http://revistapesquisa.fapesp.br/2018/05/23/barreira-anti-hiv/


sexta-feira, 18 de maio de 2018

Inclusão, é a resposta da natureza


Ambiente diverso | Revista Pesquisa Fapesp




Universidades investem em políticas de inclusão e acolhimento de estudantes e pesquisadores transgêneros 


A conquista de direitos pelos transgêneros começa a reverberar nas universidades brasileiras. Algumas delas estão criando políticas de inclusão, acolhimento e permanência de alunos e pesquisadores cuja identidade de gênero se opõe a de seu sexo biológico, a exemplo do que acontece em diversas instituições do exterior. O caso mais recente é o da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que em 2017 assegurou a professores, servidores técnico-administrativos e alunos transgêneros, inclusive visitantes e participantes de eventos, o direito do uso do nome social em registros funcionais e acadêmicos e em eventos públicos e oficiais. No caso de documentos para uso externo, como histórico escolar, ata de colação de grau, diploma e declarações, o nome social precederá o civil, que aparecerá entre parênteses.

A decisão da Unesp se soma a outras iniciativas recentes, como as das universidades Federal da Bahia (UFBA) e Estadual do Piauí (UESPI), que em 2014 aprovaram resoluções permitindo o uso do nome social a estudantes cujo registro civil não reflita o gênero com que se identificam. Mais recentemente, esse direito foi garantido a alunos de educação básica. Em janeiro o Ministério da Educação (MEC) homologou uma norma autorizando estudantes transgêneros a fazerem matrícula e registros usando nomes sociais – se forem menores de idade, o pedido deve ser encaminhado pelos responsáveis. Desde 2011, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) permite que travestis e transexuais usem o nome social no currículo Lattes. Há alguns anos, a FAPESP lidou com o caso de um ex-bolsista que, depois de mudar de sexo, pediu judicialmente a mudança de nome nas bases de dados da Fundação. Em fevereiro, o Conselho Técnico Administrativo da FAPESP aprovou um parecer que normatiza a adoção de nome social em seus registros acadêmicos.

O uso do nome social é uma reivindicação antiga de travestis e transexuais, que o consideram essencial para o reconhecimento da identidade. Na Unesp, uma das participantes da comissão responsável pela resolução aprovada pelo Conselho Universitário foi uma pesquisadora transgênero, a física Daniela Mourão, professora da Faculdade de Engenharia, campus de Guaratinguetá. Segundo ela, a norma será aplicada em mudanças de nomes masculinos para femininos ou vice-versa e não se estende a sobrenomes. “Queremos evitar que seja usada em gracejos, trotes ou protestos ideológicos”, afirma.

De acordo com ela, um dos principais desafios para a inclusão de transgêneros no ensino superior é a sua aceitação pelos colegas e professores. Por isso, a Unesp também criou outras políticas de estímulo ao acolhimento, como o projeto “Educando para a diversidade”, lançado no início do ano. “A iniciativa prevê o envolvimento de todos os setores da Unesp e a realização de palestras e debates para a promoção do respeito e da institucionalização do combate à violência contra minorias na instituição”, explica a física.

 Em fevereiro, Amara Moreira tornou-se a primeira travesti a obter o título de doutora na Unicamp usando o nome social

Daniela usou até dois anos atrás seu nome masculino, que não gosta de mencionar, mas diz que sempre se percebeu como mulher. Em 2016, iniciou o processo de mudança de gênero. “Por não entender e pensar que era uma aberração, sempre mantive tudo escondido”, conta. “Com o tempo, o medo se somou à vergonha e à ideia de ser portadora de uma doença que arruinaria a mim e a minha família”, comenta. Ainda com identidade masculina, Daniela formou-se em física, fez mestrado e doutorado, este último em engenharia e tecnologia espaciais no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Trabalhou dois anos como professor visitante no Instituto de Física da Universidade de Brasília (UnB) antes de ingressar na Unesp em 2009 como professor assistente.

Problemas envolvendo seu transexualismo intensificaram-se em 2014. À época, Daniela desenvolveu depressão, o que a afastou das atividades profissionais. Com ajuda psicológica, decidiu pela mudança. Voltou ao trabalho em fins de 2016, já com a identidade feminina. “Para minha surpresa, não houve reações negativas ou preconceituosas, o que me encorajou a seguir em frente”, comenta. Ela iniciou o processo de alteração institucional do nome após conversar com o chefe de seu departamento e a pró-reitora de Graduação. Dessas conversas, surgiu a ideia de formar uma comissão que mais tarde estabeleceria as novas normas da Unesp. Desde a aprovação da resolução houve várias solicitações por parte dos estudantes.

Situações como essa ainda não são muito comuns no Brasil. “Boa parte dos ambientes educacionais não está preparada para lidar com as diferentes formas de expressão que a sexualidade pode assumir”, afirma Keila Simpson, presidente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), que articula quase 200 instituições brasileiras com ações voltadas à promoção da cidadania dessa população. Segundo ela, estima-se que 80% dos travestis e transexuais que abandonam o ensino médio no mundo estejam no Brasil. “A dificuldade em entrar no ensino superior é o fim de um percurso de exclusão que essa população sofre durante toda a trajetória escolar”, diz.

É difícil avaliar o contingente de transgêneros que conseguem ingressar no ensino superior, pois a maioria não se matricula usando o nome social. Esse foi o caso de Amara Moreira, que se define como travesti e em fevereiro se tornou a primeira pessoa a obter o título de doutora na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) usando o nome social. “Comecei minha transição aos 29 anos, no primeiro ano do doutorado em crítica literária”, diz ela, cuja tese, intitulada “A indeterminação de sentidos no Ulysses de James Joyce”, foi orientada por Suzi Frankl Sperber, professora do Instituto de Estudos de Linguagem (IEL). “Precisamos repensar o modelo de universidade que estamos construindo, se se trata de um modelo que acolhe todo tipo de pessoa ou se apenas aquelas que se adequem aos padrões de gênero considerados legítimos pela sociedade.”

 O caso da física Daniela Mourão inspirou a criação de uma comissão que aprovou o uso de nome social por alunos e professores na Unesp

Para combater a violência contra estudantes lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT), em 2015 a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) criou uma diretoria dedicada à elaboração de políticas de acolhimento e permanência dessa população. “A primeira medida que tomamos foi a aprovação de uma portaria que garanta o uso do nome social a travestis e transexuais, inclusive nos casos de estudantes com menos de 18 anos, e o uso de banheiros a partir da identificação de gênero adotada por cada um”, destaca a professora Luciana Vieira, diretora de políticas LGBT da UFPE. Outra medida foi a concessão de bolsas a alunos LGBT para que trabalhem em campanhas de conscientização de funcionários e discentes da universidade ou na “Zona multicor”, programa de temática LGBT desenvolvido em parceria com o Núcleo de Televisão e Rádio da instituição. No Hospital das Clínicas dessa universidade também foi criado um espaço de apoio para transgêneros que querem iniciar o processo de mudança de identidade, com acompanhamento de endocrinologistas, psicólogos, fonoaudiólogos e cirurgiões.

Experiência do exterior

Estudantes de graduação transgêneros enfrentam um ambiente especialmente adverso em certas áreas do conhecimento, segundo um estudo com 4 mil universitários de 78 instituições de ensino superior dos Estados Unidos publicado em março na revista Scientific Reports. A partir de informações de uma pesquisa nacional feita com estudantes LGBT em seu primeiro e último ano na universidade, os pesquisadores verificaram que eles são 8% mais propensos a deixar a área conhecida como Stem (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) do que os colegas heterossexuais, possivelmente por se sentirem excluídos. Dados de 2016 da American Physical Society indicavam que, também nos Estados Unidos, um em cada cinco físicos LGBT enfrenta exclusão e assédio no trabalho. Transgêneros eram os mais afetados.

A principal implicação acadêmica desse fenômeno, segundo os autores do relatório, é a exclusão de estudantes e pesquisadores qualificados. Esses trabalhos também apontam que os pesquisadores LGBT ainda convivem com comentários homofóbicos, exclusão, estereótipos e expectativas de incompetência dentro da academia, ainda que outro artigo, publicado em 2015 na revista Journal of Homosexuality, tenha sugerido que os cientistas americanos LGBT se sentiam mais aceitos em seu ambiente de trabalho do que profissionais de outras áreas. O estudo também constatou que os entrevistados que trabalhavam em áreas com presença maior de mulheres, como as ciências sociais, sentiam-se mais integrados ao ambiente acadêmico do que colegas que atuavam em áreas predominantemente masculinas, como as engenharias.

Muitas instituições norte-americanas têm investido em políticas de inclusão específicas para o grupo. Por lá já existem rankings das universidades que oferecem ambientes mais receptivos aos transgêneros, o que inclui banheiros unissex na maioria dos prédios do campus, alojamentos apropriados, direito ao uso do nome social e cobertura de despesas médicas envolvendo o processo de mudança de gênero. Um dos destaques é a Universidade de Indiana, reconhecida por oferecer acompanhamento psicológico a estudantes transgêneros ou em processo de mudança de gênero, orientando-os na busca por terapias. A instituição também sedia o Instituto Kinsey, que desde 1947 promove pesquisas sobre sexualidade, gênero e reprodução humana. Em outra frente, a ONG Campus Pride elaborou uma lista com 1.036 universidades dos Estados Unidos que adotaram políticas de promoção de um ambiente acadêmico mais seguro para os estudantes LGBT.

 A pesquisadora da Universidade de Michigan Lynn Conway em 1977, após a transição de gênero

Mudança do nome

Preocupada com a inclusão dos transgêneros no ambiente científico, a National Science Foundation (NSF), principal agência de fomento à pesquisa básica dos Estados Unidos, promoveu em 2015 uma conferência com a cientista da computação Lynn Conway, uma das principais ativistas transexuais daquele país. Lynn trabalhou na IBM na década de 1960 e foi demitida em 1968, ao revelar que faria a transição de gênero. Já como mulher, recomeçou a carreira atuando como programadora na Xerox, em 1973, onde desenvolveu o VLSI, sistemas que abrigam milhões de componentes eletrônicos em pequenos chips. Em 1989, tornou-se professora na Universidade de Michigan e foi eleita para a Academia Nacional de Engenharia dos Estados Unidos por suas contribuições envolvendo o VLSI. Outro caso conhecido naquele país é o de Joan Roughgarden, professora na Universidade Stanford, Califórnia, e uma das mais influentes ecólogas no mundo. Joan nasceu Jonathan e decidiu pela mudança de gênero em 1998. O expediente de adotar um prenome com a mesma letra inicial da identidade pregressa é frequente entre pesquisadores transgêneros e busca evitar confusões relacionadas à autoria da produção científica anterior à transição.

“É imperativo pensar políticas públicas que busquem corrigir as desigualdades envolvendo essa população”, afirma a psicóloga Cássia Virgínia Bastos Maciel, pró-reitora de Ações Afirmativas e Assistência Estudantil da UFBA. Ela explica que a inclusão de transgêneros amplia a diversidade no ambiente acadêmico e a possibilidade de produzir conhecimento a partir de perspectivas e vivências diferentes. “Também pode auxiliar a criação de estratégias e políticas públicas que melhorem as condições de vida dos LGBT.” Segundo Cássia, a inserção desse grupo na universidade também é importante para ampliar a produção acadêmica sobre transgêneros, que, por sua vez, pode ser revertida na elaboração de políticas para essa população. 

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