domingo, 10 de abril de 2016

Cura, sempre importante



Uma forma de conter parasitas

Revista Pesquisa FAPESP
Podcast: Ricardo Gazzinelli

 

Quando o sistema de defesa humano é avisado de uma infecção por parasitas, como os causadores da doença de Chagas, da leishmaniose e da toxoplasmose, uma operação altamente eficiente impede que os microrganismos se disseminem dentro das células e se espalhem pelo organismo. O mecanismo de ataque a esses parasitas intracelulares acaba de ser desvendado, de acordo com artigo publicado em janeiro no site da revista Nature Medicine. “Esse conhecimento pode nos ajudar a pensar em vacinas mais eficientes na indução dos linfócitos do tipo TCD8, um problema em imunologia”, diz o imunologista Ricardo Gazzinelli, do Centro de Pesquisas René Rachou, braço da Fundação Oswaldo Cruz em Minas Gerais, e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Vacinas (INCTV). 

É sabido que os linfócitos citotóxicos detectam e combatem os patógenos que residem nas células, enquanto os anticorpos vigiam o ambiente fora delas. Mas até agora não se sabia bem como os linfócitos TCD8 atuavam no combate a protozoários e bactérias. “É importante contra vírus”, explica Gazzinelli, “porque destrói a célula infectada da qual eles dependem para se proliferar”. Ocorre que as bactérias e os parasitas são organismos autônomos e, se liberados no meio extracelular, uma vez morta a célula hospedeira, estão aptos a infectar outras células. Especialista nas relações entre o sistema imunológico humano e os parasitas causadores de doenças (ver Pesquisa FAPESP s 160, 164 e 221), o pesquisador mineiro passou o ano acadêmico de 2013/2014 nos Estados Unidos, graças a uma bolsa de professor visitante na cátedra Capes/Centro David Rockefeller para Estudos Latino-americanos da Universidade Harvard, para a qual foi selecionado. Logo no início, depois de apresentar seu trabalho numa palestra, foi procurado pela física e médica Judy Lieberman, cujo laboratório investiga os mecanismos moleculares pelos quais os linfócitos citotóxicos destroem células infectadas com vírus e bactérias. “Será que funciona da mesma maneira para protozoários?”, ela perguntou.

Começou aí a parceria dinâmica que também envolveu o médico Farokh Dotiwala, do laboratório de Judy, e o biólogo Rafael Polidoro, à época estudante de doutorado que acompanhou Gazzinelli a Harvard. O primeiro resultado foi a descrição do mecanismo destruidor de parasitas intracelulares: a microptose. O termo é inspirado na apoptose, a morte celular, por serem aparentemente muito semelhantes: formam-se bolhas na membrana celular, as mitocôndrias ficam dilatadas, o DNA é danificado e a cromatina, que contém o material genético, aparece condensada. O que diferencia as duas mortes são os atores. No caso da apoptose, os linfócitos reconhecem as células infectadas por meio de marcadores apresentados pelo sistema de defesa e liberam minúsculas bolsas, ou grânulos, contendo uma proteína que faz furos na membrana, a perforina, e uma enzima chamada graenzima. Esta entra na célula e degrada proteínas relevantes para a homeostase, levando à morte celular.

 
Gazzinelli, Judy e colaboradores mostraram que os linfócitos TCD8 humanos (mas não os de roedores) liberam também uma substância antimicrobiana chamada granulisina, que entra na célula infectada e é atraída por membranas com baixo teor de colesterol: a dos parasitas. A granulisina perfura a membrana dos parasitas e bactérias invasores e permite a entrada da graenzima, que gera compostos muito reativos à base de oxigênio (os radicais livres) e desativa os mecanismos de defesa do microrganismo contra o estresse oxidativo. São esses processos oxidativos que, na maioria das vezes, eliminam o parasita. Quando se examina esse ataque ao microscópio, a aparência é muito semelhante à da apoptose. Mas distinções químicas inerentes ao organismo – a apoptose depende de enzimas chamadas caspases, que não existem nos protozoários – e os atores distintos (granulisina e microrganismos) justificaram a criação do novo termo, microptose.

Eficiência
“Uma coisa surpreendente é que a morte dos parasitas é mais rápida que a da célula hospedeira, embora seja desencadeada depois”, comenta Gazzinelli. Isso impede que os protozoários escapem e invadam outras células, uma situação que precisaria ser combatida pelo sistema imunológico por meio de macrófagos patrulhando o meio entre as células e devorando os invasores. Era o que, até agora, se imaginava que acontecia. “Isso explica por que os TCD8 são tão eficientes no combate às infecções por protozoários intracelulares”, conclui o pesquisador. Pode ser por isso que muitos casos de doença de Chagas, por exemplo, são assintomáticos.

Também é importante a descoberta de que a granulisina não existe em todas as espécies. “A utilidade de fazer estudos de certas doenças usando camundongos tem que ser revista”, alerta Gazzinelli, embora não os descarte como cobaias. Seu grupo reiterou a descoberta produzindo roedores transgênicos capazes de expressar a proteína, e eles se mostraram muito mais resistentes a infecções por protozoários.

Frutífera, a parceria entre os grupos de Minas Gerais e de Harvard deve continuar nos próximos anos. “Pretendemos dissecar o papel dos linfócitos TCD8 no combate a essas infecções”, explica Gazzinelli. “Por que nem sempre funciona? Por que existem pacientes que desenvolvem a doença de Chagas?” Nesse contexto, Rafael Polidoro defendeu sua tese em 2014 e no ano seguinte se mudou para o laboratório de Judy Lieberman, para um estágio de pós-doutorado.

No contexto das vacinas, o pesquisador mineiro também pretende rever os testes de uma vacina terapêutica contra a doença de Chagas proposta em 2015 a partir de um estudo publicado na PLoS Pathogens, liderado pelos imunologistas Joseli Lannes-Vieira, da Fundação Oswaldo Cruz, e Maurício Rodrigues, professor da Universidade Federal de São Paulo falecido no ano passado que compartilhava a coordenação do INCTV. “Queremos usar a vacina nos camundongos transgênicos expressando granulisina para ver se é mais eficiente”, conta Gazzinelli.


Artigos científicos
DOTI WALA, F. et al. Killer lymphocytes use granulysin, perforin and granzymes to kill intracellular parasites
. Nature Medicine. on-line. 11 jan. 2016.
PEREIRA, I. R. et al.
A human type 5 adenovirus-based Trypanosoma cruzi therapeutic vaccine re-programs immune response and reverses chronic cardiomyopathy. PLoS Pathogens. v. 11, n. 1, e1004594. 24 jan. 2015.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Ainda bem



Aqui Tem Farmácia Popular atende 38 milhões de brasileiros em 10 anos
Ministério da Saúde
O programa oferece 25 produtos, sendo 14 deles gratuitos e o restante com descontos que chegam a 90%
por Portal Brasil publicado: 14/03/2016 17h00 última modificação: 14/03/2016 17h27 


Foto: AGU
É uma rede de 34.682 de farmácias conveniadas, ou seja, cerca de 50% das existentes em todo o País

Itens relacionados
 
O programa "Aqui Tem Farmácia Popular" completa dez anos em 2016 com a marca de 38 milhões de brasileiros beneficiados. Isso representa cerca de 20% da população do País.

A iniciativa, criada pelo Ministério da Saúde para ampliar o acesso a medicamentos no Brasil, já está presente em 80% dos municípios. É uma rede de 34.682 de farmácias conveniadas, ou seja, cerca de 50% das existentes em todo o País.

O programa oferece 25 produtos, sendo 14 deles gratuitos e o restante com descontos que chegam a 90%. O governo federal já investiu R$ 10,4 bilhões para ampliação do programa e na oferta dos medicamentos.

A cada mês, o Aqui Tem Farmácia Popular beneficia nove milhões de pessoas, em média. São atendidos, principalmente, brasileiros com 60 anos ou mais, que representam quatro milhões do total.

A maior parte dos pacientes atendidos (7,5 milhões) acessa medicamentos de forma gratuita. Os medicamentos mais retirados são para tratamento de hipertensão (6,4 milhões) e diabetes, (2,7 milhões).

 “O programa tem foco nos medicamentos de uso contínuo e a distribuição permite que o paciente não interrompa o tratamento. Essa possibilidade reflete diretamente na qualidade de vida e também na economia popular, já que medicamentos tem grande impacto nos orçamentos das famílias”, ressalta o secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE) do Ministério da Saúde, Eduardo de Azeredo Costa.

O programa Aqui Tem Farmácia Popular complementou o atendimento que já era realizado pelas farmácias públicas das Unidades de Saúde, ao incorporar à rede drogarias do setor privado. “Com isso ampliamos o acesso a um elenco de insumos importantes para doenças crônicas, além de contraceptivos e fraldas geriátricas”, completou Eduardo Costa.

Ampliação da oferta
No início, em 2006, o Programa disponibilizava para a população medicamentos para hipertensão e diabetes com até 90% de desconto. A partir de 2011, essa oferta passou a ser gratuita.

Atualmente, por meio do Aqui tem Farmácia Popular, a população pode adquirir 14 medicamentos para hipertensão, diabetes e asma, sem custo. Além disso, são ofertados descontos de até 90% em dez medicamentos para rinite, dislipidemia, mal de Parkinson, osteoporose, glaucoma, contraceptivos, além das fraldas geriátricas.

Investimento
O governo federal investiu nos últimos dez anos R$ 10,4 bilhões para ampliar o programa, saindo de um orçamento de R$ 34,7 milhões, em 2006, para R$ 2,8 bilhões, no ano passado.

“O orçamento crescente nos permitiu ampliar o número de farmácias. Saltamos de 2.955 farmácias cadastradas, em 2006, para 34.682, além de diversificarmos os medicamentos disponíveis. Um importante estímulo para os brasileiros que dependem dessa oferta para manter seus tratamentos”, explicou o diretor do departamento de Assistência Farmacêutica do Ministério da Saúde, José Miguel.

Usuário
Para retirar os medicamentos, o cidadão deve apresentar o documento de identidade, CPF e receita médica dentro do prazo de validade. Em fevereiro deste ano, a validade da receita  foi ampliada para 180 dias. Antes, o prazo era de 120 dias, com exceção dos pedidos para anticoncepcionais, que permanecem com validade de um ano.

O prazo maior de validade para as receitas médicas, viabilizado pela Portaria Nº 111/2016, visa beneficiar o usuário e garantir o acesso aos produtos. A receita médica pode ser emitida tanto por um profissional da rede pública quanto por médico que atende em hospitais ou clínicas privadas.

Histórico
O programa Farmácia Popular do Brasil  foi criado em 2004, com objetivo de ampliar o acesso a medicamentos essenciais, com baixo custo à população, por meio de criação de farmácias em parceria com municípios, Estados e outras instituições. 

Em 2006, houve a expansão do programa para a rede privada, dando maior capilaridade à rede que ofertava produtos com desconto de até 90%. Cinco anos depois, em 2011, passou a ofertar os medicamentos para hipertensão e diabetes gratuitamente. Em junho de 2012, entraram no elenco medicamentos gratuitos para o tratamento da asma.
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segunda-feira, 7 de março de 2016

Sai, mosquito



Rio tem queda histórica de focos do Aedes aegypti no verão
  • 07/03/2016 16h58
  • Rio de Janeiro
Douglas Correa - Repórter da Agência Brasil

 Mosquito Aedes aegyptiArquivo/Agência Brasil



Balanço da infestação pelo mosquito Aedes aegypti no Rio, feito pela Secretaria Municipal de Saúde, entre os dias 18 e 24 de fevereiro deste ano, mostrou a menor quantidade de larvas do inseto na história do município para o período de verão: 0,9%. O resultado coloca a cidade na faixa verde, que representa baixo risco para ocorrência da doença. O índice é considerado satisfatório quando está abaixo de 1% de larvas do mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya.

De acordo com a secretaria, o baixo índice de infestação pelo Aedes aegypti se deve ao constante trabalho de prevenção, conscientização e colaboração da população. As ações de combate aos criadouros do mosquito são feitas o ano inteiro, mesmo nos meses de baixa incidência da doença, e reforçados nos meses mais quentes.

A prefeitura do Rio lançou, em novembro passado, o Plano Verão, com uma série de ações desenvolvidas na cidade nesta época, para minimizar possíveis problemas causados pelo fenômeno climático El Niño. Entre elas, o reforço nas ações de combate ao Aedes aegypti, por se esperar meses mais quentes e chuvosos, favoráveis à reprodução do mosquito.

A metodologia divide o município em estratos que variam de 8.100 a 12  mil imóveis com características semelhantes. Em cada região, são pesquisados pelo menos 433 imóveis. A pesquisa identifica os bairros onde estão concentrados os focos de reprodução do Aedes aegypti. A metodologia permite saber, em curto espaço de tempo, quais áreas têm alta infestação, além de ser possível identificar quais os tipos de criadouros preferenciais em cada estrato, visando realizar atividades específicas e alertar a população por meio de mobilizações sociais.

O levantamento apontou ainda que 26,9% dos focos do mosquito estavam em depósitos fixos, como ralos, bombas, piscinas não tratadas, cacos de vidros em muros, toldos em desnível, calhas, sanitários em desuso, entre outros. Os criadouros do vetor ainda são muito encontrados em vasos e pratinhos de planta e em materiais descartados indevidamente, como recipientes plásticos, garrafas, latas, entre outros (ambos com 21,2%). Seguidos dos depósitos para armazenamento doméstico de água como tonel, tambor, barril, tina, filtros e potes (20,3%).
Edição: Maria Claudia